terça-feira, março 16, 2010

BANG! #7 - Resenha


O número 7 da revista BANG! encerra em si duas realidades distintas. Infelizmente, a primeira “morre” logo a seguir à primeira página.

Não nos confundamos. Este sétimo (aliás, na verdade é já o oitavo) número da BANG! possui muitas razões de interesse e peças de qualidade. Mas o quadro descrito na página editorial, nomeadamente no co-editorial do co-editor Nuno Fonseca, rapidamente se revela completamente desadequado perante o conteúdo apresentado.
Se o editorial de Luís Corte-Real, líder da Saída de Emergência (SdE), a quem pertence a BANG!, se centra no pendor “evangelizador” da iniciativa, focando-se nas novidades da colecção homónima da revista, Nuno Fonseca promete «ensaiar novos autores e conteúdos […] inovar e para melhor», assumindo o papel da publicação «se renovar constantemente, pisar novos territórios, abraçar novas ideias». Um editorial que nos faz esfregar as mãos de contentamento… até nos apercebermos que as mudanças são, afinal, pouco mais que inexistentes, ou meramente cosméticas; e a descrição desnecessariamente hiperbólica!

Analisemos, de forma fria, e prévia, o índice. Nele constam cinco contos; destes cinco autores, três foram já publicados anteriormente na revista BANG! (Richard Matheson, Vasco Curado e Renato Carreira). Quanto aos dois estreantes (Valéria Rizzi e Gerson Lodi-Ribeiro), por razões díspares, a abordar mais à frente, a sua inclusão parece-me desapropriada perante as intenções propaladas pelo editorial. Quanto aos artigos, dos sete presentes, cinco são de contribuidores anteriores da revista (David Soares, António de Macedo, Nuno Fonseca, João Barreiros e José Carlos Gil) e um está relacionado com um outro lançamento da editora (Octávio dos Santos), e sobre ele também existem mais algumas considerações a tecer. Quanto ao artigo do estreante Ricardo Venâncio, é sem dúvida uma mais-valia para a BANG!

Mas voltemos um passo atrás.
Rendida ao formato electrónico, após os três números iniciais em papel, a BANG! volta a ser vendida num formato impresso (adquirível apenas através do site oficial da editora SdE); agora em tamanho A4 , totalmente a cores. A juntar ao ar mais de revista e menos de fanzine, também o grafismo foi incrementado. Se isso demonstrou uma vontade de maior arrojo, é verdade que certas opções acabam por incomodar um pouco a leitura; mas são pormenores que se acredita irem ser solucionados até ao próximo número.

A revista abre com o conto “Na Guerra com Bruxas”, do americano Richard Matheson (“Witch War”, no original de 1951). Não investindo terrivelmente em explicações científicas para este grupo coquete de bruxinhas, Richard Matheson consegue no entanto criar um ambiente envolvente; mantendo a leveza da história, aliando-lhe com mestria, em contraponto, a carnificina perpetrada pelas menores sobre um grupo de soldados invasores.

Já a história que se lhe segue, “Horda Primitiva”, de Vasco Curado, parece necessitar de um editor que lhe dê a volta. Digo isso porque me parece que o autor submeteu demasiado a narrativa à moral que lhe queria emprestar. À personagem principal é reservado o papel de espectador passivo de uma situação que se apresenta ao leitor de forma pouco verosímil para além das filosofias discursadas. Como está, a atitude dos órfãos perante o padre mais não faz que seguir os caprichos do autor; sendo o leitor levado pela mão do princípio ao fim, de forma pedagógica, esvaziada de verdadeiro significado. Por um autor que já mostrou muito melhor.

“A Preocupação Fundamental”, conto de estreia da jovem Valéria Rizzi (portuguesa, de ascendência italiana), é um contra-senso (para não lhe chamar sem senso!). Apesar de se descrever na curta biografia como «espreita[ndo] para o mundo das janelas góticas da sua vivenda», este conto nem denota uma influência gótica nem, tão pouco, uma voz feminina. A batalha campal movida por uma miríade de espécies animais aos veraneantes humanos é descrita numa prosa desconjuntada, de estrutura incongruente, e numa voz masculina, muitas vezes próxima da escrita de um João Barreiros, mas neste caso imberbe e de quinta categoria. Não sei se terá ou não sido essa a fonte inspiradora; mas custa-me a acreditar que os editores da BANG! tenham considerado este conto com as características mínimas para ser incluído na publicação.

Segue-se “A Melhor Diversão da Cidade”, de Gerson Lodi-Ribeiro, autor brasileiro já conhecido dos leitores portugueses, tanto pela sua participação em antologias (incluindo A República Nunca Existiu!, 2008, da SdE) como pelos livros que publicou na Editorial Caminho (Outras Histórias, 1997, e O Vampiro da Nova Holanda, 1998).
Tendo-se notabilizado pela sua exploração do romance histórico alternativo, sub-género onde será um dos principais autores lusófonos (por exemplo, os contos que escreveu sob o pseudónimo Carla Cristina Pereira são brilhantes), Gerson Lodi-Ribeiro apresenta-nos aqui uma desafiante história de amor carnal entre um humano e uma extra-terrestre.
Apesar da competência da história, causa estranheza, voltando de novo a referir o editorial acima mencionado - e as suas promessas de frescura e novidade -, que, tendo o Brasil actualmente uma vaga considerável de novos autores, e uma prolificidade invejável dos autores veteranos, tenha sido escolhido este conto, anteriormente publicado na antologia Como era Gostosa a Minha Alienígena! (2002) para representar o que se faz do lado oposto do Atlântico. Pior, entrando na moda actual patente nas revistas nacionais de literatura fantástica, não é dada qualquer indicação da sua publicação prévia.

O artigo “O Druida de Somersby”, de Octávio dos Santos, que acompanha o poema “Kraken” (1830), de Alfred Tennyson, apesar de escorreito, pouco passa de um artigo de wikipedia. A sua incorporação talvez seja melhor explicada pela sincronicidade da publicação de Poemas pela SdE (com tradução do próprio Octávio).

Felizmente, o artigo que se segue, “A Companhia dos Cegos”, de David Soares, constitui exemplo perfeito de uma peça de excelência. Abordando comparativamente o Ensaio sobre a Cegueira (1995), de José Saramago, e O Dia das Trífides (1951), de John Wyndham, David Soares analisa o papel da cegueira em ambos, e as suas ramificações. Apoiado por várias leituras, e referências, explana conceitos como a inconformidade, o nojo e o terror. A par da crescente qualidade como romancista, é claramente compensador que o autor continue a exercitar a sua veia ensaística, sendo a revista um local ideial para tal.

Para quem acredita que não pode existir um fantástico de “gostinho” luso, aqui está “O Indescritível Sr. Salcedo”, de Renato Carreira, para o desmentir. Na linha do que João Ventura ou João Bengelsdorff já tinham atingido nas páginas da BANG!, este conto traça o abalo sofrido pela realidade do dia-a-dia ante as invasões do sobrenatural. Mais especificamente, a crescente impossibilidade do Inspector Baltazar Mendes ignorar as espantosas evidências que atravessam o seu espírito analítico.

“HP Lovecraft – Um Ícone da Cultura Ocidental Contemporânea (2ª parte)” completa o artigo, da autoria de José Carlos Gil, iniciado na BANG! anterior. Num tom mais académico que os restantes artigos da revista, mas igualmente acessível, o principal tema analisado é a racionalidade de Lovecraft perante a cosmogonia que transparece nas suas obras.

Entre livros que não existem por terem sido destruídos, livros que nunca foram escritos, e livros que não querem ser lidos, “Livros Míticos, ou a Biblioteca (quase) Invisível”, de António de Macedo, é um artigo de deliciosa leitura, numa série que o autor promete continuar em breve.

A revista termina com três rubricas, sem elucidar se se irão manter com os mesmos contribuidores, ou se estão reservadas para rodar convidados.
No caso de “De A a BD”, esperemos que Ricardo Venâncio se mantenha. Este desenhador de banda desenhada, autor da série Defier (2009), apresenta uma opinião bem fundamentada e interessante sobre o comic Watchmen (1987), de Alan Moore e Dave Gibbons.
Nuno Fonseca, em “Luzes, Câmara… Bang!”, opina sobre os filmes Avatar e Sherlock Holmes.
Em “Os Livros das Minhas Vidas”, João Barreiros dá lugar à nostalgia por outros livros, noutros tempos.

Voltar a ver a BANG! em papel seria sempre uma alegria. Mais, depois de constatar a elevada qualidade da maioria do material incluído neste número 7. Quanto aos aspectos menos conseguidos (de grafismo, de conteúdo e de revisão), acredito que irão ser devidamente melhorados na próxima edição; com a cabeça perdida na fantasia, mas os pés bem assentes no chão.

4 Comments:

At 3/19/2010 12:38 da tarde, Blogger OCTÁVIO DOS SANTOS said...

«O druida de Somersby» não é, na verdade, um artigo, e muito menos um «artigo (ao estilo da) Wikipédia»: é a breve biografia de Alfred Tennyson (com outro título e um pequeno texto de introdução/contextualização) que eu escrevi e que está nos «Poemas» daquele autor que eu traduzi.

Se eu gostaria de ter produzido e entregado algo de diferente sobre o tema? Provavelmente, sim. Mas, na altura, não tinha tempo nem disposição para isso; e, quase de certeza, não me dariam o espaço necessário.

 
At 4/21/2010 12:29 da tarde, Blogger J M Leal said...

Fico contente por ter gostado de "O Anão".
Fiquei espantado por alguém conhecer o conto...

Joao Bengelsdorff

 
At 4/22/2010 1:49 da tarde, Blogger Rogério said...

Olá, João.

Então eu não me ia lembrar dos contos que publiquei como editor da BANG?! :P loool
E aposto que mais pessoas terão ficado a conhecê-lo!

Já agora, como vai a escrita? Outros contos publicados/escritos?

Um abraço,
Rogério

 
At 4/22/2010 1:59 da tarde, Blogger J M Leal said...

Ah foi o Rogério? Então obrigado!

Enviei na semana passada mais um para a Bang! mas precisa de um pouco de edição. Não creio que o irão escolher.

Contos escritos sim, publicados é que não.
Ando às voltas com um romance Thriller/Fantástico. É hobby mas parece-me que poderá ficar com uma qualidade razoável.

Tenho um blogue em que vou falando sobre o processo da sua escrita. Visite-me me joaomleal.blogspot.com

1 abraço!

 

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