sábado, junho 10, 2006

No melhor pano...

Uma das coisas que mais me assusta, depois da falta de bom-senso, é a falta de sentido crítico com que vejo muitas coisas serem feitas. Faz-me lembrar os anos de faculdade, e principalmente as aulas práticas, onde (levando ao extremo!) não era raro ver alguém apresentar como conclusão que necessitava de duas toneladas de glucose para fazer 5 ml de uma solução 1 g/ml. Quando levava nas orelhas, havia sempre que sacudir a água do capote com o famigerado: "foi erro da calculadora".

Vem este registo nostálgico a propósito da recente edição da revista Ficções (a nº13), que anuncia ser em grande parte «fruto de uma Oficina de Tradução Literária». Uma oficina que, acrescente-se, fez passar os candidatos por um processo prévio de selecção e que cobrou propina aos escolhidos.
Sabendo-se desde cedo que as melhores traduções teriam a possibilidade de serem incluidas na Ficções, uma revista já com um estatuto reconhecido, esperava-se que a atenção no trabalho fosse redobrada, tanto dos alunos como da professora/editora Luísa Costa Gomes.

A revista abre de maneira sublime, com O Marinho, de George Sand, uma fabulosa versão/tradução de Amadeu Lopes Sabino (que aparentemente não fez parte da oficina). Depois disso, apesar de serem pálidas perante o exemplo inicial, as restantes traduções são competentes, embora claramente não todas ao mesmo nível.

Quanto à razão mais imediata que me fez comprar a revista, a promessa de inclusão de contos dentro do género fantástico, a minha desilusão foi considerável. Luís Rodrigues apresenta um Egnaro, de M. John Harrison, que começa de forma brilhante, mas que se perde a meio do caminho, e Ana Gomes apresenta A Menina Grande do Papá, de Ursula LeGuin, encantador mas com algumas fraquezas (ou incongruências internas?). Num outro tom de fantástico, acabei por gostar muito mais de Cristo em Casa de Marta e de Maria, de A.S. Byatt, traduzido por Sara Figueiredo, aparentemente uma das alunas da oficina.

Permitam-me copiar um excerto deste útimo conto:
"[...]Nunca dirigia a palavra ao homem, mas trabalhava furiosamente na sua presença, pisando os alhos no almofariz, cortando os filetes do peixe com concentração e habilidade, sovando a massa, executando uma tatuagem de sons com o cutelo, como uma saraivada, reduzindo as cebolas a fragmentos finos de luz translúcida. Sentia-se como um espaço opressivo de escuridão ignorada, um fardo de sombra lastimável nos cantos da sala que o artista registava febrilmente."

Ok, meus amigos, onde está o Wally?
Eu sei que o pós-moderno tem as costas largas, e que hoje em dia se fazem metáforas que não lembram ao diabo, mas "uma tatuagem de sons"?!

Entra aqui em cena a falta de sentido crítico, propriedade que se revela ainda de maior importância se estamos a falar de tradução.
Obviamente não é de esperar que o tradutor saiba tudo, nem se for nativo da língua a traduzir, mas espera-se que investigue quando algo lhe soa... bizarro, e não que se limite a afastar o pormenor como parvoíce do autor.
Ora, se a tradutora se tivesse dado ao trabalho de abrir um simples dicionário, ficaria a saber que tattoo, para além de ser uma tatuagem como as que tanto estão hoje na moda, também tem os significados de «tamborilar, bater com os dedos» e «toque de recolher, festa militar acompanhada por música, batimento contínuo».
Mesmo que nunca tenha ouvido falar em tatu militar, actividade que realmente tem caido em desuso, estamos a falar num conto realista onde tal expressão, mesmo que metafórica, salta aos olhos como desenquadrada (num conto de ficção científica já seria outra conversa!).
E, se neste caso, a tradutora o era sob o estatuto de aluna, responsabilidade redobrada de quem a estava a supervisionar, e a avaliar/rever os trabalhos para inclusão na revista. É que, nas Letras, a culpa nunca poderá ser "da calculadora".

2 Comments:

At 6/12/2006 1:30 da manhã, Blogger Luís Rodrigues said...

Curiosamente, essa questão da "tatuagem de sons" foi discutida ad nauseum na oficina e tinha ficado assente que não estava correcto. Não percebo como foi acabar na revista. Enfim . . .

E com que então o conto do Harrison perde-se a meio do caminho? Explica lá melhor. :P

 
At 6/25/2006 11:21 da manhã, Anonymous Anónimo said...

"Uma tatuagem de sons" ok...se a moda pega começo a usar esse belo termo em conversas!

 

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