quarta-feira, março 31, 2010

O Evangelho do Enforcado - Resenha

Com O Evangelho do Enforcado comemoram-se da melhor maneira os 10 anos de carreira do escritor (,ensaísta, argumentista e desenhador) David Soares. Como ocorre com o pintor Nuno Gonçalves durante este romance, talvez o autor não tarde a ser surpreendido ao ser apelidado de “Mestre”; porque é disso que se trata: uma tapeçaria de História e Criatividade, nela entretecidas com mestria.

Neste livro, narrado entre 1395 e 1450, cruzam-se os destinos das figuras principais da Ínclita Geração, principalmente os Infantes D. Pedro, D. Henrique e D. Duarte, de Nuno Gonçalves, possível autor dos Painéis (chamados) de S. Vicente (eles próprios um móbil poderoso em toda esta trama), e de várias personagens que vieram a fazer parte do património de folclore, espiritual e histórico, lisboeta.


Os personagens principais são moldados pelo autor com grande profundidade, baseando-se nos seus possíveis (ou imaginados) anseios e motivações: Henrique, na sua ambição, Nuno, na sua loucura, Pedro, na sua auto-consciência. Navegando muito para lá do que delas se conhece através da História, e algumas vezes mesmo assumidamente em sua contradição (quando a consistência da Estória pretendida assim o exigia), mesmo assim são mantidos os factos mais marcantes, balizando o bailado de personagens conduzido pelo autor de uma forma que se mantém harmoniosa, mesmo para o leitor mais esclarecido. Da mesma forma, a descrição dos locais, nomeadamente na capital, revela uma Lisboa Medieval em toda a sua grandiosidade e podridão, literalmente evocando uma pintura quinhentista com as palavras.

Os diálogos apresentam-se bem pensados e polidos, com especial destaque para o julgamento de Nuno Gonçalves e do seu némesis, o Geronte, perante os Decanos. Aliás, aqui David Soares consegue insuflar o romance com uma cosmogonia própria, relacionando o autor original dos Painéis com aquele que, séculos mais tarde, os iria (re)descobrir. São façanhas como esta que marcam os autores verdadeiramente brilhantes. E antes do fim do romance, David Soares consegue ainda desvendar uma pequena prenda para todos aqueles que leram anteriormente o Lisboa Triunfante (mas que consegue em nada prejudicar este romance para os leitores que não o fizeram!), desta forma elevando os seus romances a um nível superior, interligando-os, dando ao leitor a sensação de que acabou de vislumbrar, fugazmente, uma gnose transcendente.

Ao se resenhar um romance deste calibre, não se pode fazer mais do que fornecer um breve e ténue contorno. O mais saboroso, a carne que cobre os ossos, é algo que é melhor ser vivenciado que descrito. Porque as palavras que realmente interessam, nem a mais nem a menos, já David Soares as colocou entre a capa e contra-capa deste livro. A meio caminho entre o romance histórico e a literatura fantástica, mas tão bem concebido e executado que se torna irresistível para ambas as audiências, este O Evangelho do Enforcado “ingere-se” de um trago, e anuncia voos ainda mais altos.

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