quinta-feira, dezembro 09, 2010

Vaporpunk - Resenha (1/2)

O primeiro impacto da colectânea luso-brasileira Vaporpunk – Relatórios steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades é obviamente a capa. Um meticuloso trabalho de Erick Santos, que remete o observador para a abertura de um novo mundo de possibilidades tecnológicas. Da mesma forma, o próprio nome escolhido para o volume empresta-lhe imediatamente uma ambientação lusófona, sensivelmente diferente do clássico steampunk.


Esta primeira parte da resenha incidirá sobre a “metade” de origem portuguesa, sem outro critério que não seja a sua inserção na actual corrente da ficção fantástica nacional. Assim, para além do trabalho de antologista de Luís Filipe Silva, assinalam-se as participações de Yves Robert, Jorge Candeias e João Ventura.

A escolha da extensão noveleta, ao invés de conto, é bastante interessante; principalmente tratando-se de contos que em alguns casos fogem à usual inclusão no género steampunk, e por isso beneficiarão teoricamente de um pouco mais de espaço de contextualização e desenvolvimento.
Qualquer uma das três noveletas apresenta-se com uma qualidade de escrita acima da média. E curiosamente, cada um dos autores “atacou ” o tema com uma perspectiva diferente, assim como são algo díspares os tratamentos literários formais apresentados.

Começando pelo que mais se afasta do esperado, O Sol é que alegra o dia, de João Ventura, centra-se na figura histórica de Padre Himalaya (1868-1933) e nos seus inventos de aproveitamento solar. Assim surge, já entrados no séc. XX, um heliopunk, posterior até à verdadeira Revolução Industrial. Uma alternativa não-poluente que enfrenta as poderosas indústrias do carvão e do petróleo a que estamos presentemente subjugados.
Do ponto de vista formal, a noveleta, iniciada com dinamismo, começa a resvalar para um tom ensaístico, que eventualmente se torna o registo dominante até ao seu final. A intenção de abarcar toda a vida do engenhoso padre português obriga a que muitos segmentos não sejam mais que relatos jornalísticos/históricos, um encadear de sucessos retumbantes que nega a premissa inicial de luta perante o poder de um conglomerado político-industrial mundial; que afinal não se revela em mais do que dois actos de desastrado vandalismo.
O final, preso a uma tentativa de mostrar como a História de Portugal seria diferente perante o sucesso tecnológico da energia solar, também acaba por produzir em termos de especulação histórica algumas dificuldades. Apesar de delicioso, o ponto final soa de alguma forma insignificante, perante a prometida revolução global, e principalmente perante a necessária mudança social que inviabilizasse o clima que levou à ascensão ao poder de Salazar; ao invés da utopia da Comunidade da Luz parecer ser automaticamente estendida a todo o território e sociedade. Da mesma forma, dificilmente essa revolução tecnológica asseguraria a manutenção da Monarquia, com o beneplácito de republicanos e outros opositores. Perante o notório fanatismo de alguns sectores republicanos e maçónicos, o mais provável é que o próprio Padre Himalaya se tornasse num alvo a abater, por sustentar de forma tão decisiva o regime monárquico. Por último, a posição de heterodoxia manifestada pelo personagem principal no início, e que abria portas a algumas vias de conflito, acaba por se esfumar sem continuidade.
Após ler esta noveleta, ficou-me a curiosidade de ver alguns dos seus episódios tratados de uma forma mais dinâmica, isoladamente, em conto ou noveleta. E provavelmente com uma conflituosidade acrescida, de forma a melhor mover a narrativa.

Unidade em chamas, de Jorge Candeias, altera o que foi o envolvimento de Portugal na Guerra da Sucessão Espanhola, baseando-se num poderio aéreo fornecido pelas invenções de outro padre, Bartolomeu de Gusmão (1685-1724). No entanto, aqui os pormenores históricos são mantidos propositadamente vagos, cedendo o palco ao drama humano vivido pelos tripulantes dessas naves.
Em termos de escrita, será até ao momento o texto mais conseguido pelo autor que li. A prosa é evocativa e bastante próxima das emoções dos personagens. Igualmente, os cenários e a tecnologia especulativa são descritos com riqueza e fluidez. Nomeadamente, o autor dá-se a grande empresa ao fazer uma descrição metódica e detalhada da Passarola de Bartolomeu de Gusmão, numa versão bastante aproximada daquela que foi desenhada pelo filho de 14 anos de um dos seus patronos; e cujo aspecto fantasioso foi encorajado pelo próprio Bartolomeu, afim de iludir os potenciais plagiadores da sua tecnologia. Jorge Candeias resolve a anacronia tecnológica ao potenciar a Passarola com um secreto Gás Gusmão, capaz de elevar a nave com máquinas, tripulação e respectiva aparelhagem bélica.
Mas o fulcro da noveleta revela-se ser não a nova tecnologia, mas a coexistência de dois contingentes de aeronautas: um de brancos e outro de negros e mestiços. Apesar da boa vontade de D. João V, suportado por uma elite cultural e científica mais esclarecida, muitos dos brancos assumem, por soberba ou ignorância, uma posição xenófoba. Se os primeiros não a perdem, por ganância frustrada, os segundos parecem, aos poucos, na imposta camaradagem do dia-a-dia, confrontarem-se com a questionação desses hábitos.
Apesar da capacidade técnica exibida, no final a noveleta induz o sentido de uma narrativa mal aplicada. Desde muito cedo temos a noção que Sidónio, o personagem principal, é um dos elementos tolerantes do corpo de brancos; não sendo a situação crítica que ocorre no final que o transforma de maneira radical. Similarmente, os vilões da noveleta são apontados cedo, e mais não fazem do que interpretar um papel unidimensional, comum em obras que assumem um pendor marcadamente panfletário.
Acima de tudo, e ao contrário da noveleta anterior, neste caso estamos perante o que poderiam ser um ou dois excelentes capítulos de um romance, mas que como noveleta se revela aquém de uma resolução satisfatória.

A última noveleta a referir, embora seja destas a que surge primeiro no volume, Os oito nomes do deus sem nome, de Yves Robert, é precisamente a que mais se aproxima do steampunk arquetípico. Passada no reinado de D. Carlos I, trata-se de uma história de espionagem; num mundo em que o Reino-Unido se impôs pela sua maquinaria, a França pela sua pesquisa psíquica, e Portugal alargou o seu Império… pela sorte!
Obviamente há muito mais por detrás dessa “fortuna”, e caberá aos espiões estrangeiros, ajudados por dois espiões portugueses, descobrir esse segredo e, se possível, derrubar o poderio português.
Ao fantástico sobrenatural que permeia desde o início a noveleta, Yves Robert contrapõe alguns gadgets com conotações steampunk. Infelizmente, pela aparente preocupação de não se afastar de um sentido realista, acaba por faltar algum brilho à competição gabarola entre nacionalidades. Em maior ou menor grau, falta a mesma chama ao longo da noveleta; apenas surgindo na reviravolta final.
Mesmo sendo indubitavelmente a obra de narrativa mais dinâmica, essa reviravolta é claramente redentora da noveleta; e conseguiu afastar o sentido de iminente desilusão que me estava a acompanhar o final da sua leitura. Em resumo, uma noveleta que termina de forma excepcional, mas que talvez pudesse ser mais trabalhada no meio.

Fica assim em falta resenhar os contos de autores brasileiros, para que se possa dar uma opinião sobre a antologia como um todo. De qualquer maneira, é de assinalável interesse este “diálogo” lusófono, ainda mais na forma de noveletas e com uma tentativa de temática unificadora; pena é que o seu período de submissão não tenha sido melhor divulgado no nosso lado do Atlântico.

3 Comments:

At 12/09/2010 4:49 da tarde, Blogger Luís Filipe Silva said...

"pena é que o seu período de submissão não tenha sido melhor divulgado no nosso lado do Atlântico."

Rogério, para ajudar a esclarecer: desde o início que a antologia foi pensada em moldes de submissão fechada, por convite - algo que foi inicialmente seguido de forma equitativa nos dois lados do Atlântico.

Os convites aos autores brasileiros correram muito bem, e creio que não houve recusas, ou se houve, não foram significativas. Quanto aos portugueses, infelizmente, tal não ocorreu, e houve casos em que só numa fase adiantada se percebeu que os textos não chegariam a surgir.

Neste ponto, em conversas com o Gerson, decidi excepcionalmente abrir a submissão livre e expandimos o prazo de entrega só para o lado português. Infelizmente, isto não surtiu qualquer efeito, pois como resposta houve apenas uma submissão que não tinha nada a ver com steampunk... Nem perguntas, nem pedidos de adiamento de prazo - silêncio absoluto.

Foi uma triste constatação, apenas contrabalançada pela qualidade das participações nacionais que chegaram a acontecer (como bem referes). A minha conclusão foi que o steampunk tem um discurso bastante activo no Brasil, mas aqui nem por isso. Aliás, isso pode constatar-se pela postura do próprio Vaporpunk: premiar o formato noveleta, em contraponto ao formato conto da antologia organizada pelo Gianpaolo Celli. Este tipo de postura só existiria num mercado em que o diálogo do steampunk já estivesse num nível de sofisticação um pouco mais avançado de "steam-quê?"...

Se não houve mais autores portugueses nesta antologia, só aos autores portugueses se deve. Ou falta deles.

 
At 12/09/2010 6:20 da tarde, Blogger Rogério said...

Olá, Luís.

Realmente, concordo contigo quanto à (crónica) falta de adesão dos escritores portugueses a este tipo de iniciativas. No entanto, quando digo que tenho pena que não tenha sido melhor divulgado, é porque acho que a divulgação esteve mesmo em falta e que, não sendo a razão principal, foi mais uma das razões a contribuir para a falta de adesão.

Indo rapidamente atrás para consubstanciar a impressão com que fiquei nessa altura, repara:

A primeira divulgação deste lado do Atlântico da submissão foi em Fevereiro de 2009, no blog da Simetria, com prazo para Julho de 2009. Nesse período foi também a única divulgação de que tenho ideia nessa altura. Porquê? Não sei!

O sinal seguinte veio em 20 de Agosto, já fechado o prazo, finalmente no teu próprio blog, agora com prazo alargado para 18 de Outubro. E aí sim, começa a convocatória a ser espalhada pelos vários sites e blogs nacionais de fantástico.

Agora pergunto eu, a 20/8 é imaginável esperar noveletas, escritas de raiz, num género que quase sempre implica pesquisa histórica, para serem entregues antes de 18/10. Em pleno período de férias de verão?!
Ainda por cima quando a convocatória original, penso que essa que referes ter sido feita por abertura excepcional aos escritores portugueses, é de Fevereiro? Ou seja, na prática, pedindo em 2 meses o que se poderia ter dado 8 meses para preparar? O que já me pareceria um prazo mais produtivo...

Um abraço,
Rogério

 
At 12/09/2010 6:46 da tarde, Blogger Luís Filipe Silva said...

A convocatória no site da Simetria foi um equívoco. Estava-se em fase de convite pessoal e não era suposto ter sido publicada. Só lhe foi dado destaque, como dizes, meses mais tarde, aquando da abertura generalizada.

Ainda assim, considera que, mesmo com publicação indevida, nenhum resultado surgiu. Ninguém enviou mails a perguntar coisa nenhuma, ninguém se insurgiu contra datas apertadas, ninguém disse "esperem lá que tenho aqui algo porreiro". Não houve qualquer curiosidade, então ou mais tarde.

 

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