terça-feira, abril 12, 2011

O Mapa do Tempo - Resenha


Há livros dos quais se torna difícil falar. Nessas obras, as surpresas reservadas pelo autor ao leitor estão de tal forma fundidas nas colunas de sustentação do enredo, que qualquer palavra avançada por quem já tenha terminado de o ler corre o risco de estragar um encadeamento de deslumbramentos aos leitores seguintes. Como podem por esta altura antecipar, é isso mesmo que acontece com O Mapa do Tempo (El Mapa del Tiempo, 2008), do espanhol Félix J. Palma , publicado entre nós pela Planeta.

Esta compacta obra de mais de 500 páginas não é um passeio pelo parque. Como se espera de uma boa história com viagens no tempo, a exigência de atenção ao leitor é considerável. Mais, quando o início do livro se reveste de alguma densidade de escrita, e quando, na melhor tradição dos livros de aventuras, tanto a realidade como a irrealidade raramente são o que aparentam.
Efectivamente, este O Mapa do Tempo, talvez pudesse ser descrito como “o que aconteceria se Philip K. Dick escrevesse a biografia de H.G. Wells”. Podem imaginar o resultado: algo como um conjunto de matrioskas que, a cada nova camada, revelam uma cópia que ao mesmo tempo é e não é igual à anterior. Aqui, Félix J. Palma, que assume a sua principal influência literária como sendo Júlio Cortázar, revela-se um fabuloso prestidigitador, sabendo levar a bom porto uma história imaginativa que, apesar de tantas voltas e reviravoltas, consegue nunca perder a consistência e a capacidade de surpreender.

A narrativa, dividida em três partes, e em grande medida condicionada por um narrador (ultra-)omnisciente, tem formalmente como personagens principais Andrew Harrington e Claire Haggerty. Apesar de ambos viverem na Londres de 1896, enquanto Andrew deseja alterar a trágica interferência de Jack, o Estripador, no seu passado, Claire vive entediada com o séc. XIX e almeja as emoções de um ano 2000 pós-apocalíptico vislumbrado pela empresa Viagens Temporais Murray. Tanto Andrew como Claire são personagens interessantes; pese embora a faceta depressiva que domina as suas vidas, mas que é habilmente compensada pelo autor com Charles, o primo de Andrew, e com o Capitão Shackleton, o salvador da Humanidade do ano 2000.
Mas é Herbert George Wells, o autor do romance A Máquina do Tempo, aqui o ponto de ignição para o interesse de toda a sociedade britânica nas viagens temporais, que, voluntária ou involuntariamente, se torna o cerne de toda esta trama.

Félix J. Palma consegue trazer à vida com sucesso a ambiência vitoriana de Londres, e o espírito indómito do cavalheiro imperial britânico desta época; mas também a Londres mais obscura. E a sua escrita revela a cada momento o amor pela literatura, e pelo próprio processo de escrita. Aliás, neste último aspecto, o autor não se coibiu a deixar registada a sua reflexão sobre o actual panorama do processo editorial.

Em resumo, e não me atrevendo a dar qualquer outra pista sobre o seu enredo, julgo que estamos perante um dos mais inteligentes e provocantes romances de ficção científica disponíveis no mercado nacional.
Que O Mapa do Tempo tenha passado relativamente despercebido pelos amantes do género é um sinal dos tempos, ao que não será alheia a sua publicação fora das editoras que geralmente dão alguma visibilidade à ficção científica, num registo de romance histórico/romance de aventuras, ainda mais quando galardoado com um prémio também ele fora do género (neste caso, o Prémio Ateneo de Sevilla 2008). E a tudo isto nem será alheia a opinião do autor:
Outro dos medos que eu tinha é que o romance fosse catalogado como ficção científica. Porque eu creio que não é um romance de ficção científica. Creio que utiliza um tema de género, que é o da viagem no tempo, mas tentei escrevê-lo com as armas da literatura geral. […] Queria que a paixão [do leitor normal] pela boa literatura pesasse mais que o seu preconceito pela literatura fantástica, que há muitos leitores assim aqui em Espanha.

Aliás, a sua visão, de escritor profissional, perante o “perigo” de se ser rotulado como escritor de género, e de isso dificultar a estabilidade financeira e projecção de um autor, fica patente, por exemplo, nas seguintes entrevistas; mesmo quando é evidente que sente uma atracção pela literatura fantástica:



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