terça-feira, outubro 06, 2009

Quando um burro fala, os outros...


Estive ausente por uns tempos, por exigências profissionais, e devo admitir que foi com alguma tristeza que constatei o actual clima de crispação no meio Fantástico português.

Obviamente que esta tendência não é de agora. Com o boom recente de edições nacionais, incluindo várias obras de autores portugueses estreantes, começou a desenhar-se uma amarga trincheira que, aparentemente, tem vindo a ser “ornamentada” com fiadas de arame farpado e a tiros de canhonada.
Se antigamente os escritores nacionais se queixavam de uma falta de feedback quanto às suas obras, actualmente parece haver uma febre opinativa; não raras vezes de uma superficialidade preocupante. Igualmente, tanto essas análises-à-corrida como outras opiniões que resvalam entre o ensaio crítico e o artigo opinativo (tenho para mim que ambos são separados pelo grau de emotividade aplicado na sua escrita), parecem andar a gerar uma desajustada troca de galhardetes. Cinicamente, ou talvez nem tanto, dividiria esses comentários entre os que prezam a qualidade e os que prezam a diversidade; ou os que querem dividir a discussão entre a erudição e o entretenimento.

E digo “cinicamente”, porque deveria ser óbvio a todos que as duas não são mutuamente exclusivas. Nem sempre é obrigatório saber-se fazer melhor para reconhecer que algo está mal ou bem feito. Na mesma medida, descrever o que se acha estar mal na obra de outrem não é sinónimo de se estar a reclamar um estatuto de superioridade. Há quem aponte falhas aos outros e também falhe, embora essas falhas costumem vir acompanhadas se não de maior ambição, pelo menos de maior capacidade.

Guerras, guerrinhas, e batalhas campais são coisas habituais no meio pequeno em que se tornou (aliás, sempre foi) a literatura fantástica lusa. É tão factual como se de um casamento se tratasse. Mas na verdade, creio ainda não se me tinha sido dado a observar um choque geracional assim. Refiro-me a Portugal, claro, porque nos últimos anos tenho assistido a isso mesmo no Brasil. E, espante-se, lá deu origem a um novo fôlego do CLFC – Clube de Leitores de Ficção Científica, a principal estrutura organizativa do género, e da própria literatura fantástica brasileira.

No entanto, há razões para isso ter acontecido que parece ainda não se terem propiciado no nosso país. Principalmente porque a nova vaga de fãs brasileiros, entre eles vários escritores, foi liderada por pessoas que tinham um conhecimento sólido do passado do género, e porque souberam “acordar”, e beneficiar de, uma série de fãs, novamente entre eles vários escritores, que por cansaço se tinham afastado das lides fandómicas.
Efectivamente, a nova vaga de fãs (inevitavelmente, entre eles vários escritores) portugueses não parece ter como base da sua escrita ou do seu discurso crítico o que poderia ser considerado a “bagagem cultural” da literatura fantástica. Ao invés, as suas referências assentam antes nos aspectos musicais e visuais, quer na estética de bandas de música como na de séries e filmes de anime. Obviamente, isso em si não teria nada de mal, mesmo tendo em conta o carácter derivativo dessas fontes, mas acaba por ter como efeito mais evidente o agudizar de algumas outras falhas mais técnicas; seja a nível da narrativa, do worldbuilding, ou mesmo do simples uso da língua portuguesa. Quer se queira aceitar como argumento válido ou não, essas fontes pecam muitas vezes pela falta de consistência. Pela diferença de linguagem técnica, serão certamente distinguíveis (e, mais uma vez, isso não seria certamente mau, atente-se nos autores que têm sabido fazer uma fusão de ambas).

Assim, torna-se fácil explicar como vejo o despoletar de discussões que se extremam entre o apontar de dedo à falta de qualidade e os processos de intenções por dolo intelectual e inveja pessoal.

Conheço pessoalmente alguns dos arautos da velha guarda, como têm sido tratados por alguns comentadores (não surpreendentemente muitos deles anónimos!), e conheço pessoalmente alguns dos novos escritores. Entendo a preocupação e sentido de escândalo dos primeiros, assim como as boas intenções e alguma da perplexidade dos segundos. Se retirarmos alguma da emotividade de artigos, respostas e contra-respostas, creio que, em muitos casos, o que os une será mais do que o que os separa. Para além disso, ambos farão bem em lembrar que quem critica também se expõe à crítica; tanto ou mais do que quem escreve. Se escrever é um acto de coragem, o acto da crítica, ainda mais quando é consubstanciada (bem longe do “gostei porque sim” ou “não gostei porque sim”), não é de menor valor. Da mesma forma, é um acto de responsabilidade e de respeito. A forma como é feito condiciona, e muito, a forma como é recebido.

Acredito que por vezes, num meio impessoal e emocionalmente tangencial como consegue ser a internet, muitos dos que são os pontos a reter numa argumentação sejam ignorados ou mesmo distorcidos. Pormenores que seriam de esclarecimento instantâneo são transformados em longas, e desnecessárias, batalhas verbais. Em resumo, lições mútuas acabam por se perder.

É inegável que a literatura fantástica portuguesa precisa de sangue novo. É também incontornável que nem tudo se resolve com números, e que textos de fraca qualidade acabam por prejudicar mais do que ajudar à promoção do género; e, por arrasto, irão prejudicar aqueles que nele se inserem e que pretendem mais da sua carreira de escritor do que publicar um livro e desaparecer.
Este tempo de mais fácil acesso à publicação acabou por criar uma camada extra de dificuldade ao discernimento entre o trigo e o joio. De igual modo, as solicitações do mercado não favorecem a maturação das obras (e não, não se podem desculpar erros por serem a “primeira obra”; isso será a melhor forma de os perpetuar, todos nós ganhamos vícios de forma!).

Pelo que está escrito acima, nota-se que ainda acredito que o que tem faltado é uma troca de ideias presencial entre todos os que se interessam pelo género. Como em tudo na vida, o baptismo de fogo logo dará a devida importância a quem sabe aceitar ou não críticas construtivas, assim como quem as sabe ou não fazer. Há quem me diga que, ao contrário, isso seria um grande erro; um definitivo empurrão para o abismo. Bom, na minha opinião, esse caminho não estará ainda esgotado. Tenho esperança que, daqui a alguns anos, se constate que vários dos novos autores souberam construir uma carreira ascendente (em quantidade, diversidade e qualidade), e que o diálogo entre autores novos e estabelecidos terá sido capaz de dar os seus frutos.

1 Comments:

At 10/07/2009 11:02 da tarde, Blogger Francisco Norega said...

Olá Rogério.

Foi bom ler este texto. Uma posição mais "lúcida", mais fria (no bom sentido da palavra ;)).
Talvez presencialmente fosse melhor, realmente. É uma ideia a pensar-se seriamente. Para quando a próxima tertúlia? (De preferência que não seja em vésperas de eleições! xD)

Sei que contribui de alguma forma para que este "clima" se instalasse. Não foi, de maneira alguma, propositado.
Mas ainda não chegámos a nenhum ponto em que não possamos restaurar a ordem xD Mãos à obra, então ;)

 

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