domingo, abril 18, 2010

Uma Espécie de Sentido - Resenha

O avistamento de ficção científica com vestes de "profecia humorística" é algo que me provoca automaticamente calafrios. Principalmente quando de autoria lusa. No entanto, é com deleite que posso afirmar que este Uma Espécie de Sentido, de João Pedro Duarte, conseguiu prender-me durante as suas 100 páginas, lidas de um fôlego, rir a bom rir, e pensar a bom pensar.

Para além do brilhante trocadilho no título, a citação em forma de dedicatória, do humorista Raul Solnado, revela de início o principal fio condutor da narrativa, «Façam o favor de serem felizes!», mesmo que algumas das personagens demorem a percebê-lo.
Esta não é uma história sobre o futuro de Portugal como país. Aliás, nesta história, Portugal não existe; submergido na catástrofe natural que fez desaparecer muitos dos locais que hoje conhecemos. Mas nesta história perpassa muito do que significa sermos portugueses, e, mais à frente, até algo da nossa relação africana recente, tantas vezes hoje relegada ao esquecimento.

Estamos em 2110, no que resta de Paris, França, numa Europa sob forte poder matriarca. Os homens tornaram-se impossíveis de confiar, assolados por inúmeras doenças físicas e mentais, e a infertilidade assentou arraiais. Há anos que não nasce uma única criança na Europa, e a alteração da balança de poder trouxe consigo novas inseguranças na batalha dos sexos. É esse o caso dos protagonistas; Miriam, médica, e David, faxineiro, amam-se num mundo que já não reconhece tal sentimento, oprimido pelo egocentrismo militante e confundido com a demência reinante.

A história é escrita num calão acutilante, sempre com o humor a aflorar em cada passagem; uma forma em que João Pedro Duarte se mostra bem à vontade. Igualmente, os diálogos são inseridos como se de um guião para teatro ou cinema se tratasse.
Em breve os dilemas do casal desencontrado são postos em perspectiva pelo assalto de um pedófilo (ex-apresentador de televisão, provavelmente a lembrar alguém muito específico!), intento em raptar o bebé de um casal fértil entretanto encontrado em África - afinal, o que poderá haver de mais penoso para um pedófilo que a extinção das crianças?!

É apenas a partir deste ponto que a história perde um pouco da sua bem-disposta “verosimilhança”. Principalmente com David em Moçambique, afinal o problema de fertilidade que o autor refere anteriormente ameaçar a humanidade só faz sentido no contexto europeu. Ou, por outro lado, talvez essa inconsistência nasça do facto do tema que sempre interessou mais ao autor abordar ter sido o dos afectos, utilizando a infertilidade como um mecanismo extremo.

Mas no final, com uma apropriada dimensão épica e emocional, o preço exigido a todos talvez seja o suficiente para revelar o caminho para uma, ou várias, formas de felicidade.
No balanço total, uma agradável surpresa (a lembrar o excelente O Século Primeiro depois de Beatriz, de Amin Maalouf), um livro bastante empolgante de ler, e um autor a manter debaixo de olho.

2 Comments:

At 4/18/2010 6:25 da tarde, Blogger Morrighan said...

Este é um dos livros que conto ler brevemente.
Estou a ler o seu primeiro livro: A Casa do Sonho Pagão e confesso que no início do livro achei a sua escrita um pouco confusa e foi um pouco difícil entrar na vida das personagens. Dificuldades passadas, estou a conseguir apreciar o livro, como ele é, embora sendo pagã não me reveja em muito do que está lá descrito.
Apesar disso, estou a gostar de descobrir este autor. É sem dúvida alguém a ter em conta.

Para quem quiser conhecer melhor o autor, deixo aqui a entrevista dele no meu blog (desculpa a publicidade Rogério):
http://branmorrighan.blogspot.com/2010/04/joao-pedro-duarte-escritor-portugues.html

Espero também vir a fazer um passatempo para este mesmo livro. Mas desconfio que só em Maio/Junho.

Boas leituras*

 
At 4/18/2010 11:06 da tarde, Blogger Rogério said...

Olá, Sofia.

Obviamente fiquei muito curioso sobre esse primeiro livro. A ler em breve...

Bjs,
Roger

 

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