sexta-feira, abril 23, 2010

O Alambique (ou A Minha Reacção a Uma Reacção ao Post Anterior)


Blogs sem caixa de comentários disponível soam-me sempre a Muro das Lamentações. Até se pode orar lá, mas não se está à espera de ouvir grande resposta!
Por outro lado, quem o faz talvez confie que, se o caso for suficientemente importante, o Altíssimo logo tratará de arranjar uma forma de dar um sinal. E mesmo que as orações nem sequer sejam dirigidas ao Céu (mesmo com a disponibilidade das actuais novidades tecnológicas, as mesmas que nos pareciam tecnofantásticas há poucas eras), talvez também se confie nalgum vento que as carregue nessa direcção e as faça poisar no ouvido do querubim certo.

Vem esta poética introdução a propósito do artigo gentil e acutilante que o escritor Luís Filipe Silva publicou no seu blog, como desabafo, sobre a minha recente indicação de livros de FC portugueses que mereciam ser publicados em inglês, reportada aqui no post anterior.
No blog do Luís vejo-me impossibilitado de responder por não haver espaço para resposta, assim como aqui não encontro comentários do Luís na minha própria caixa de comentários (como ocorreu nas questões colocadas pelo também autor Octávio dos Santos, ao qual já respondi por esse meio). Portanto, como se calhar o assunto até merece, pormenorizo um pouco mais as razões da minha escolha, não porque a isso seja obrigado, mas porque poderão contribuir para um melhor entendimento dos critérios que escolhi aplicar, e porque talvez ajude a iniciar um debate mais vasto (espero que debate, e não apenas a «reflexão» sugerida pelo Luís...).

Quando aceitei participar na recolha que o Jonathan Cowie estava a fazer, sabendo que eram vários os contribuidores mas desconhecendo que mais nenhum era de Portugal (aliás, as minhas sugestões só deveriam ser aceites após secundadas por outro membro do fandom nacional...), o projecto chamava-se "major SF novels overlooked by Britain". Nessa altura, através de uma troca de emails com o organizador em que tentei perceber exactamente qual a intenção da iniciativa, julguei aperceber-me de várias indicações ao encontro das quais tentei ir. Nomeadamente:

- As indicações deviam dizer especificamente respeito a romances, excluindo colectâneas ou antologias.
- Os elementos de FC deviam constituir o motor base da história, não considerando histórias que "deslizassem" para a fantasia.
- Independentemente da minha sensibilidade de qualidade ou não, de originalidade ou não, o critério que eu deveria privilegiar deveria ser a capacidade de cada livro de ser atractivo, actualmente, como proposta para um editor britânico/norte-americano interessado em arriscar publicar um autor português; com as vicissitudes conhecidas de mercado.

Daqui surgiram as minhas escolhas, não pretendendo responder a um título que surgiu posteriormente à minha contribuição, o tal dos "SF classics", mas apresentando uma shortlist de obras a serem apresentadas a editores anglo-saxónicos, para um lobbying efectivo. O que é bem diferente de pretender traçar a história da FC em Portugal, o que claramente não me foi pedido, nem apregoado no texto final (mesmo que a assumpção de que todas as nomeações atingiram por inerência o estatuto de "clássicos" tenha aparentemente lançado alguma confusão nalguns leitores).
Aliás, foi intencional a escolha de obras mais recentes (dos últimos 10 anos) que, quando o processo estivesse completo e as editoras nacionais fossem contactadas, como originalmente planeado, não provocassem respostas anacrónicas para o exterior, aí sim dando uma imagem de falta de consistência da aposta.

Da mesma forma, seguindo estes critérios, ficava, para mim se não para outros, afastada a opção de indicar obras «cheiinhas de falhas, mas nossas», pela simples razão de espicaçar a memória. Mesmo que algumas das obras indicadas pelo Luís, e outras (da mesma altura) não mencionadas por ele, sejam das minhas preferidas, tenho consciência das suas limitações. Principalmente quando a tarefa é apregoar o nosso peixe como o mais fresco e de guelra avermelhada!

Junto-me então à sugestão do Luís, de reflexão; adicionando votos de discussão, na caixa de comentários já aqui em baixo.

15 Comments:

At 4/23/2010 7:56 da tarde, Blogger OCTÁVIO DOS SANTOS said...

Rogério, obrigado pelas respostas (dadas às perguntas que te coloquei na entrada anterior).

Esperemos então que, numa próxima edição da iniciativa (que será quando?..), já tenhas uma «opinião formada sobre o (meu) livro» - que foi apresentado em Lisboa (na FNAC Chiado) há um ano, em Abril de 2009, numa sessão em que estiveste presente. Além disso, há pelo menos uma «opinião disponível publicamente» em que, se quiseres, te poderás «apoiar» - a de Miguel Real, publicada no Jornal de Letras, Artes e Ideias (vou enviar-ta por correio electrónico), que afirma que o meu livro constitui uma narrativa «estranha», «singular», «sem correspondência em outro romance na actual literatura portuguesa». Também se pode indicar a referência, feita pelo Luís Filipe Silva no Tecnofantasia, de que o «Espíritos das Luzes» representa «talvez a primeira obra extensa portuguesa de steampunk», e cujo «rol de personagens históricos é impressionante.»

É claro que o meu livro não é (até ao momento... ;-)) um «best-seller»... mas, é certo, e tu o reconheces, não há até hoje qualquer livro de FC & F português que se possa designar como tal (com excepção, digo eu, de alguns de José Saramago...) Obviamente que, ponderados estes e outros factores, a decisão de quais livros incluir, futuramente, nesta iniciativa, continuará a ser tua. Porém, pergunto-me se não seria «passível de interessar a editores anglófonos», bem como aos britânicos membros da ESFS, cujos nomes mencionaste, uma obra: que se desenrola num universo paralelo, numa dimensão alternativa, em que os países – incluindo Portugal e o Reino Unido – são... planetas; e que tem como um dos protagonistas principais... um inglês chamado William Beckford (e com «participações especiais», entre outros, de Kant, Sade e Voltaire).

 
At 4/24/2010 5:00 da tarde, Blogger Rogério said...

Olá, Octávio.

Agradeço o envio do artigo do Miguel Real, que li com cuidado. Do que conheço do teu livro, concordo de um modo geral com a opinião do Miguel, tanto com o que citas em relação à singularidade da obra, mas, também, ao que ele refere como a exigindo ao leitor um considerável estofo histórico que, se ele próprio deixa entender não ser generalizado no nosso público leitor, compreenderás em relação ao estrangeiro.

Além disso, concordando que a ideia que serve de base ao romance é única, e até diria brilhante, temo que o nível da execução não tenha acompanhado a excelência da ideia original (mas permite-me que deixe esse assunto para explorar convenientemente numa futura resenha da obra).

Termino referindo-me à citação que fazes da opinião do LFS. Evidentemente tenho uma concepção de steampunk muito diferente da dele. É que não vejo como poderá ser a primeira obra steampunk portuguesa quando não lhe encontrei até agora nas suas descrições de tecnologia elementos desse sub-género da história alternativa. É que nem todas as tecnologias alternativas são steampunk... penso eu! Por mais popular que o termo se tenha tornado, penso que ainda está conectado com tecnologias de vapor e mecânica, quando o que encontro no teu livro são electrónica, electricidade, magnetismo, lasers,...
Quanto ao rol de personagens, é impressionante, obviamente.

Abraço,
Rogério

 
At 4/24/2010 11:31 da tarde, Blogger Luís Filipe Silva said...

Olá, Rogério. Aproveitando a caixa de comentários... :)

Sobre o steampunk: bem, steam devia ser vapor, mas a verdade é que o sub-género ficou demasiado ligado à época vitoriana e ao Difference Engine. Prefiro considerar uma definição mais lata, ou seja, a influência de tecnologia avançada em épocas passadas. O livro do Octávio encaixa-se assim nisso.

Abraços

 
At 4/25/2010 5:04 da tarde, Blogger OCTÁVIO DOS SANTOS said...

Rogério, fico então à espera que digas (escrevas...) porque, no «Espíritos das Luzes», o «nível da execução» não acompanhou «a excelência da ideia original». Uma opinião que, deduzo, terá constituído outro motivo (talvez o principal?) para não teres proposto o livro ao já mencionado painel da Odyssey 2010/ESFS – e que, claro, terei todo o gosto em rebater. ;-)

 
At 4/26/2010 12:17 da manhã, Blogger Rogério said...

Raios, começo a sentir o soalho do Palácio de Cristal a fugir-me debaixo dos pés! :P

 
At 4/26/2010 12:27 da manhã, Blogger Rogério said...

Agora a sério, Octávio, enfrento a minha opinião como algo subjectivo, passível de modulado pelos meus pontos de vista/preconceitos/expectativas, não como a Verdade Absoluta.

Assim, na resenha darei a minha opinião, não uma sentença; por isso duvido que haja necessidade de «rebater». É que quando muito estarei enganado... e não errado!

Um abraço,
Rogério

 
At 4/26/2010 4:03 da tarde, Blogger João Seixas said...

Oi Luís,

Numa altura em que os sub-géneros se vão tornando cada vez mais específicos, tendo surgido recentemente editoras (como a Wildside) que já separam Steampunk, de Dieselpunk, de Electropunk, etc..., não consigo concordar com a tua definição mais abrangente.

Por exemplo, de acordo com a tua definição, a introdução da descoberta da pólvora em eras pré-históricas seria steampunk ("influênxia de tecnologia avançada em épocas passadas.") Tal como o seria a introdução do motor a reacção num cenário de Primeira Grande Guerra, ou de televisores LCD em cenário de anos 1960.

Não me parece, por isso, nem de perto, nem de longe, aceitável como definição de steampunk. Não podemos adaptar uma definição para nela incluir um livro, por muito que isso nos agradasse.

O livro do Octávio, pelo que li até agora, é uma Fantasia de História Alternativa, ou pura e simplesmente uma Fantasia Nacionalista, não chegando a ser nem História Alternativa, nem Steampunk.

Abraços,

Seixas

 
At 4/26/2010 4:34 da tarde, Blogger OCTÁVIO DOS SANTOS said...

Rogério, quando eu escrevi «rebater» queria, obviamente, significar «contestar», «contrariar», «contra-argumentar».

E não subestimes a tua própria opinião: a prova de que ela é mesmo relevante é que foi tida em consideração num importante evento da FC europeia, que constitui igualmente, segundo me parece, uma das raras ocasiões em que a «produção nacional» neste sector pode ter algum destaque internacional.

O que me causou insatisfação – e, creio que posso dizê-lo, também ao Luís Filipe Silva – no teu contributo para a Odyssey 2010/ESFS não foram QUAIS os livros que sugeriste mas sim QUANTOS. Se bem percebi, não estavas (tal como os outros colaboradores) limitado a escolher, no máximo, dois. Haveria mais obras igualmente merecedoras de recomendação. E, sem falsas modéstias, sim, acredito que «Espíritos das Luzes» poderia ser uma delas.

 
At 4/26/2010 5:37 da tarde, Blogger Rogério said...

Luís,

Com o devido respeito, steampunk assenta sobre dois pilares, a tecnologia e a época. Para mim, uma aplicação lata seria a história ter uma componente e não outra. O conceito estrito seria ter as duas.

Quando não tem nenhuma... chama-se outra coisa. Olha, acho que tecnofantasia assentaria que nem ginjas!
(embora, na história do Octávio, pelo que vi até agora, a tecnologia é assessória e não central).

Já temos tantos rótulos, que reinventá-los só aumenta a confusão. Penso eu de que...

Abraço,
Rogério

 
At 4/26/2010 7:24 da tarde, Anonymous Anónimo said...

"E, sem falsas modéstias, sim, acredito que «Espíritos das Luzes» poderia ser uma delas."

Alguém já leu este livro? Que tal é? Vale a pena? Quando vejo autores a choramingar fico logo de pé atrás.

 
At 4/26/2010 10:43 da tarde, Blogger OCTÁVIO DOS SANTOS said...

Ah, estes anónimos... sempre tão «corajosos»! Com alguns, na verdade, só mesmo de pé atrás... para assim ganhar-se balanço e dar-lhes um «chuto», figuradamente falando, e não só.

 
At 4/27/2010 12:54 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Ó octávio, com essa ginástica toda ainda desloca qualquer coisa. Não se empertigue com a minha pergunta, mas é certo que só o vejo a si a defender o seu livro. Compreende-se, mas gostava de conhecer uma opinião não comprometida.

Ao menos alguém comprou o livro?

 
At 4/27/2010 2:18 da manhã, Blogger Luís Filipe Silva said...

Eis o problema dos debates nos comentários: se não me ocorresse vir aqui nem saberia que havia respostas (leio os blogues quase exclusivamente pelos agregadores de RSS).

A questão dos sub-géneros é pertinente e retirarei o livro do Octávio da equação. A minha pergunta, abreviada, é a seguinte: grande parte das classificações que ocorrem na FC surgem in media res. Ainda a coisa está a acontecer e já está a ser etiquetada, empacotada e vendida à parte. Aconteceu assim para o ciberpunk (Bethke?), para o Slipstream (Sterling?), para o Steampunk (Blaylock). Ou seja, ainda os autores não perceberam bem o que querem fazer com o objecto literário e já um tipo qualquer lhes diz o que fica dentro e o que fica de fora (João, eu sei que podemos discutir sobre isto ad eterno :))

Para todos os efeitos, o steampunk tem uma vertente bastante forte de análise dos efeitos da tecnologia no tecido social de uma época. Mas ainda assim não é distinto de história alternativa, é só um tom específico que alguém decidiu, por ser característico, destacar e chamar por outro nome. E isso não está mal. Mas depois surge a descoberta da pólvora na Idade Média, e temos de encontrar outro nome. Pergunto-me se haverá realmente necessidade disto ou se não estaremos a andar a respeitar demasiado designações apressadas dos outros quando temos igual legitimidade de inventar e reinventar as nossas.

Abraços

 
At 4/27/2010 9:35 da manhã, Blogger Rogério said...

Pelo menos eu comprei, lol. Como o Octávio referiu, estive presente no lançamento (e não fui o único!), na FNAC Chiado, onde adquiri o dito.
Admito que, após iniciar a leitura, tive algumas complicações de... penetração, e acabei por o colocar de lado (mantendo-se na pilha de dezenas de livros a ler, mas agora com um nível de prioridade menor).

Obviamente, devido às questões que aqui se levantaram, e de como pode ser constatado pelas resenhas que tenho feito ultimamente no blog andar a cobrir o melhor que posso as obras nacionais, o livro avançou para o topo da pilha, tendo retomado a sua leitura.

Abraço,
Rogério

 
At 4/27/2010 9:42 da manhã, Blogger Rogério said...

Luís,

Acho que o ponto fulcral é que somos livres de criar novas designações, certamente, mas que não devemos, sob risco de deixarmos de nos entender, reinventar o que as designações existentes significam.

E criar rótulos com inteligência até pode ser mais eficaz que reinventar os existentes.
Ainda há pouco tempo ouvi alguém propor-se a escrever um livro electropunk. Acho que todos perceberam o que isso seria... muito melhor do que se lhe tivesse chamado steampunk! (e, depois das críticas de má rotulação, o autor se viesse defender que era steampunk... mas com electricidade ao invés de vapor) :P

Um abraço,
Rogério

 

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