domingo, maio 16, 2010

A Noite e o Sobressalto - Resenha


A Noite e o Sobressalto é a obra de estreia de Pedro Medina Ribeiro. Sete contos, maturados ao longo de sete anos, que constituem uma muito auspiciosa entrada na literatura fantástica nacional.

Cognominado como “sete histórias de mistério”, é constituído por narrativas fantásticas na sua veia mais tradicional do séc. XIX, nomeadamente nos contos de autores como ETA Hoffmann ou Edgar Allan Poe. Mas indiferentemente das suas inspirações, Pedro Medina Ribeiro mostra-se capaz de produzir uma ambiência sequencialmente familiar e macabra com uma invejável economia de palavras. Como se espera da ficção curta, todos estes contos se apoiam numa rápida empatia do leitor com as mundaneidades e, posteriormente, com as peripécias das personagens principais; em narrativas que privilegiam o relato na primeira pessoa.

Também a escolha de cenário se revela bastante eclética, e em todos os casos eficaz. Seja a relatar a Berlim do início do séc. XX, Praga ou Londres no séc. XIX, a época medieval, ou o Alentejo presente.

A colectânea abre com “A Séance”, onde Herr Bernhardt nos brinda no início do conto com uma mudança de paradigma bem real, entre a Religião e a Matemática, através da qual o autor habilmente nos prepara para a montanha-russa que se segue; pois em breve o protagonista pode estar perante uma nova alteração da sua percepção da realidade.
Uma sessão espírita entre a elite rica e esclarecida de Berlim serve de mote a esta história que, como um conto policial, nos faz pender de convicção em convicção, oscilando entre explicações paranormais e terrenas.

“A Face Obscura da Lua” lê-se como um tributo às obras clássicas de cinema com monstros dos anos 30. Aqui se encontra a mansão no meio da floresta num país do leste europeu, o monstro, a mole de camponeses em fúria, a destruição a meio da noite, etc. A isto acrescenta-se uma testemunha involuntária.

“O Caminheiro” e “O Monstro Marinho” são narrativas de “casos” que valem pela forma como gerem a tensão até à sua conclusão.

“Mandrágora”, provavelmente o meu conto preferido da colectânea, seguido de perto pelo “A Séance” e “Post Mortem”, surpreende-nos, num ambiente de crendice medieval, com uma história de horror puramente humano.

“Post Mortem”, que foca a tragédia do suicídio no Alentejo, apesar de numa forma bem peculiar, é porventura o conto que mais se identifica com um literal murro no estômago do leitor. Arrepiante!

“A Herança”, último conto, retorna ao tom policial, na perseguição ao possível culpado por lançar uma maldição. Uma história invulgar, a citar Dickens mas a lembrar Conan Doyle, contada por um personagem que nos assevera continuamente da sua singeleza. À semelhança dos contos anteriores, aqui a riqueza das personagens faz muito por elevar a história.

Numa avaliação global, é brilhante esta estreia de Pedro Medina Ribeiro. Pelo tratamento do material fantástico, pela coerência e consistência das histórias, dos cenários, e das personagens. Perante este início, pela sua força e qualidade, empalidecem inúmeras queixas de aspirantes a autores que melhor fariam em olhar para o que lhes falta melhorar ao invés da atenção que julgam ser-lhes devida.
Pedro Medina Ribeiro é, sem dúvida, um autor a seguir em próximas obras.

5 Comments:

At 5/16/2010 11:38 da tarde, Blogger Morrighan said...

Eu sabia que ias gostar!!!

Foi dos livros que mais gostei de ler este ano =)

Espero que o Pedro volte à carga o mais breve possível =)

Abraço

 
At 5/16/2010 11:43 da tarde, Blogger Milene said...

Ainda não o terminei, mas até à data, "Mandrágora" é também o meu conto preferido.
Ler um conto desses um bocadinho antes de dormir é do melhor que há =)
Faz-me voltar aos meus tempos de criança em que queria ver filmes de terror, mas depois tinha medo de apagar a luz na hora de ir para a cama XD

 
At 5/27/2010 1:22 da tarde, Blogger PEDRO said...

Comprei-o para ler à noite, antes de dormir. São histórias curtas e que se lêm bem. Muito bem escrito, e muito bem estruturado. Em cada história ficamos com pena que tenha terminado, embora estejam construídas precisamente para deixar sempre aquele "qualquer coisa" mais entregue à imaginação, no ar. Um escritor com esta capacidade de descrição, forma de escrever e imaginação, leva-nos a pedir um conto fantástico, "à maneira". Um volume pesado, maciço e que proporcione horas de fantasia, emoção e sobressalto.
Força, Pedro Medina! Venha então a grande história! Ganhou mais um fã.
J.Pedro Baltasar

 
At 5/28/2010 6:20 da tarde, Blogger Pedro said...

Já anteriormente agradeci a crítica ao Rogério e os comentários à Milene e à Sofia... Resta-me agradecer ao J. Pedro Baltazar. Posso perguntar-lhe se é o autor do "Jaguar"? Partilhamos muitas referências e estou cheio de curiosidade em ler o seu livro. Um abraço.
Pedro

 
At 8/09/2010 2:26 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Olá, Pedro.
Prazer em o ler.
Os meus parabéns uma vez mais pelo seu livro. Uma capacidade de escrita superior à média, no meu humilde entender. Apesar de o ter já lido, com uma segunda incursão por algumas hostórias, mantenho-o na cabeceira. Merecia uma série televisiva. Um episódio para cada história. E sim, sou o autor do "JAGUAR", o meu romance de estreia.
Uma nota sem falsas modéstias: Gostaria de conseguir recorrer com mais naturalidade às suas inúmeras capacidades linguísticas e narrativas, bem superiores às minhas, pese embora a diferença de estilos.
Diga coisas: Um abraço!
JPedro Baltasar

 

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