domingo, maio 16, 2010

Sermão aos Peixes


A recente realização de um debate sobre literatura fantástica na Feira do Livro de Lisboa voltou a dar azo a alguns comentários da vox populi em relação à questão dos novos autores. Mesmo compreendendo algum sentimento de frustração quanto às dificuldades de acesso à publicação, ao que isso expõe os potenciais autores aos esquemas menos honestos de vanity presses, à falta de visibilidade publicitária dos que realmente chegam às editoras, não posso deixar de reparar no contraste entre a ligeireza de alguns dos comentários e o que apreendo como a realidade (até internacional) do fenómeno. Ainda mais pela tarefa de resenhar a colectânea de estreia de Pedro Medina Ribeiro, que me suscitou muitas das considerações que pretendo tecer sobre o assunto; mas que separarei deste post, por não pretender reduzir o seu livro a estas polémicas.

O debate, que pode ser ouvido aqui (cortesia do Ricardo Lourenço), tinha por tema "Bruxas, Vampiros e Zombies", e, por convidados, os editores Luís Corte-Real (Saída de Emergência), Joana Neves (Contraponto) e Pedro Reisinho (Gailivro), e a “leitora” Sofia Teixeira (blog Morrighan). Moderado pelo jornalista Luís Caetano (RDP), a conversa centrou-se exactamente no que se poderia esperar do tema atribuído: as modas actuais da literatura fantástica.

Perante a forte componente editorial do painel, nomeadamente por duas das três principais editoras do género em Portugal (SdE e Gailivro – pena que não tenha também participado a Presença, ou que sobre ela não se tivesse tecido algum comentário, resta saber se por vontade própria ou por falta de convite), e por uma editora em que o género é aposta recente e crescente, seria muito difícil que as opiniões não se centrassem nas problemáticas de mercado que explicam o actual momento da literatura fantástica; com particular sublinhar nas obras dos catálogos das editoras presentes. Restou à “leitora” o inglório papel de representar um campo absolutamente heterogéneo, que perante o influxo de obras estrangeiras se interroga por vezes se não haveria mais espaço para os autores nacionais.

Há que ter alguma noção que o mundo editorial não escapa aos fenómenos vigentes em toda a economia e mundo empresarial. As equipas editoriais são cada vez mais pequenas, cada vez se publicam mais livros; o somatório é de cada vez menos disponibilidade para o trabalho “de sapa” necessário à preparação de um manuscrito para publicação. Assim, não deveria ser de admirar a preponderância das obras estrangeiras, nem sempre brilhantes do ponto de vista literário, mas ao menos competentes do ponto de vista formal, e muitas vezes com um ímpeto publicitário de notar. Ao editor basta uma decisão comercial, de tentar antever se aquela obra resultará em vendas no mercado nacional; decisão que é muitas vezes facilitada pelo sucesso anterior noutros mercados.

Erradamente, muitas pessoas, especialmente potenciais autores, vêem nisto uma preguiça e uma má-vontade dos editores para com a produção nacional. Nada mais falso!
Mantendo a visão do editor actual como um homem de negócios, nada seria mais atractivo que a existência de um mercado nacional pujante para a literatura fantástica de produção nacional. Representaria uma poupança nas traduções, na compra de manuscritos de preços muitas vezes inflacionados por campanhas internacionais e por concorrências editoriais, uma oportunidade de maximizar a relação entre autores e leitores, entre outras vantagens. Mas para isto é necessária a existência de boa matéria-prima.
Costuma apontar-se, para caracterizar a má-vontade dos editores, que por vezes apenas são avaliadas as primeiras páginas de um manuscrito, antes do mesmo ser rejeitado. Não devia ser surpresa para ninguém que as primeiras páginas de uma obra funcionam como o seu cartão-de-visita; nelas o potencial leitor é agarrado ao fio da história, ou é perdido para sempre. O mesmo acontece com o editor. É que, convenhamos, escritor que não tem a percepção da necessidade de apostar neste segmento da obra, não tem consciência do que é escrever um livro para ser lido (e vendido!).
Neste ambiente, os potenciais escritores confundem muitas vezes as características inerentes aos editores. Não é a eles que cabe ajudar o autor a melhorar a “mecânica” da sua escrita, a tão comum má escrita do português. Isso cabe ao próprio escritor, a aulas, a oficinas e cursos de escrita, aos amigos que deviam dar opiniões sinceras e não apenas palmadinhas nas costas. Nem o revisor é a panaceia para todas as incapacidades; não é a ele que cabe reescrever um manuscrito em bom português!

Quando uma obra está bem escrita, seja o seu pendor literário ou de entretenimento (ou ambos), duvido que não haja hoje em dia pelo menos uma das editoras nacionais que não a tenha em consideração. Ao contrário, assistimos a oportunidades perdidas, como o Prémio Bang!, da SdE, onde nenhuma obra se conseguiu enquadrar nos padrões temáticos e de qualidade exigidos (e que no entanto proporcionou a alguns autores a publicação no posterior lançamento da colecção Teen, da mesma editora).

Claro que nem tudo o que vem de fora é mais interessante do que o que se faz cá dentro, mas a eficácia da publicidade não é de desprezar. Nisso, em grande medida, reside também um dos calcanhares de Aquiles dos autores nacionais. Existe nomeadamente ainda uma ineficácia em utilizar as novas tecnologias para potenciar a criação/fidelização de públicos. Quantos dos novos autores possuem locais oficiais na net, com informação própria e excertos das suas obras apresentados de uma forma atractiva? Quantos se esforçam por mostrar aos leitores o trabalho que está por detrás dos seus universos criados? Trata-se das mais básicas regras de marketing e, é de bom-senso, que um escritor que consiga criar o seu próprio público será considerado de forma mais interessada por uma editora.

Não se pense que a crítica anterior se limita aos novos autores. Também os mais “estabelecidos” necessitariam de um pouco de Red Bull neste departamento. Afinal, não se distingue a literatura fantástica por um certo sentido de comunidade? Mesmo num meio cada vez mais fragmentado, mais ainda pela sua expansão para o (ou, absorção pelo) mainstream.

Mas voltando aos novos escritores, e à queixa que não são suficientemente motivados pelos leitores/editores/críticos, permitam-me uma comparação com o meio anglo-saxónico. A revista Locus, regista, no seu balanço do ano de 2009, a publicação de 94 primeiras obras de literatura fantástica, ou seja, estreias de novos escritores. Dessas, a revista aconselha a leitura de apenas 14; ou seja, 15%!
Isto passa-se num universo onde existe, ainda, um culto à construção da carreira de um escritor, a existência de inúmeras oficinas e cursos de escrita, várias revistas dedicadas à ficção curta de género, reconhecida como uma escola de escrita por excelência.
Claro que aqui se premiará mais do que a competência da escrita, distanciando o patamar do que estamos a analisar no caso nacional, mas não deixa de ser um exemplo de como a distinção é duplamente valorizada quando é exclusiva ao invés de genericamente inclusiva.

Por último, voltamos às características mais básicas associadas com a escrita de literatura fantástica. Primeiro, a própria escrita em si. Para uma comunicação adequada, e para impedir que o leitor, mesmo tendo interesse na história, não se canse da leitura pela quantidade de erros de ortografia e estrutura que a podem assolar. Segundo, por um conhecimento, mesmo que lato, do que é o próprio género. Mesmo querendo evitar a excessiva auto-referenciação que tem colocado, principalmente a ficção científica, a falar um pouco sozinha, há que ter uma noção da história geral e das temáticas tratadas pelo género no passado e no presente. Depois, ter a consciência que ser um autor publicado é entrar num mundo de negócios. Portanto, há que ter uma atitude profissional (mesmo que a escrita seja um part-time!). Por último, ignorar a tradição da literatura fantástica é arriscar a cair no ridículo; por se “reinventar a roda”, por se violar a consistência dos universos criados, etc. E para isso, torna-se essencial a leitura; não só do livro derivativo do momento, mas essencialmente do clássico que lhe deu origem.

Quanto à resenha sobre a (fabulosa) estreia do Pedro Medina Ribeiro, que despoletou todas estas considerações, fica prometida para breve.

7 Comments:

At 5/16/2010 7:44 da tarde, Blogger Ricardo Lourenço said...

Foi bom poder ler uma perspectiva que tenta chamar a atenção para a realidade do mercado editorial. A compreensão do mesmo só pode ser benéfica para quem procurar uma carreira como escritor.

Outro ponto que aqui foi salientado, e muito bem, é o do conhecimento do género, que estranhamente (ou talvez nem tanto) é bastante menosprezado, mostrando uma falta de aproveitamento das acessibilidades que as novas tecnologias têm vindo a proporcionar.

 
At 5/17/2010 3:10 da tarde, Blogger XR said...

Rogério,

Um "debate" semelhante está a ocorrer no blogue do João Seixas, também originado pelo debate da Feira do Livro.
Ali, coloquei ao João uma questão à qual, em parte, já respondeste aqui. Mas não resisto a apresentar-ta também: o que falta aos editores nacionais para poderem dar algum tipo de feedback personalizado caso se lhes depare uma obra com qualidade de ideias mas alguma pobreza de execução vinda de um autor nacional? Tempo, vontade ou um misto dos dois?
Atenção: não estou a dizer que o editor deveria "ensinar" ao autor o que fazer para alterar! Apenas a questionar a possibilidade, ou não, de uma resposta do tipo "A ideia é boa mas a escrita é confusa", cabendo então ao autor querer ou não melhorar a sua execução literária e reapresentar o manuscrito.
Crês que seria possível?

Regina Catarino

 
At 5/17/2010 10:17 da tarde, Blogger Rogério said...

Olá, Regina.

Vamos lá ver as coisas em perspectiva (ou antes, vamos desviá-las um pouco para o ridículo!).
O que dirias a um ciclista com boas pernas, mas que não soubesse andar de bicicleta? "Vá lá aprender a pedalar e depois falamos"?

Um autor com boas ideias e pobreza de execução alguma vez será um bom escritor?

Mas a questão nem é sequer essa!
A realidade é que muitas vezes nem a escrita é competente nem as ideias se descolam de cópias requentadas das obras do momento.

E vários autores profissionais têm referido, ideias cada um tem às mãos cheias. O difícil, o que separa os escritores dos outros, é a capacidade de concretizar essas ideias.

Claro que, sendo a ideia bom e a escrita mostre promessa, aí é quando o editor faz o comentário: "a ideia é boa, mas a escrita é confusa". Ou seja, acontece, mas numa fasquia já de si mais elevada.

Respondi?

Rogério

 
At 5/17/2010 10:22 da tarde, Blogger Rogério said...

E posso acrescentar, que a falta de auto-crítica (que chega ao ponto de serem enviados aos editores obras inacabadas, para se ter uma opinião do seu desenvolvimento!), deve ser o que mais consegue irritar um editor!!!

Rogério

 
At 5/17/2010 10:37 da tarde, Blogger Ricardo Lourenço said...

Esse aspecto da auto-crítica parece-me importante, e pelos vistos muitas pessoas falham nesse aspecto, o que me admira quando, por vezes, a simples leitura de obras do género em que se insere o que escrevemos, nos permite estabelecer um paralelo entre a qualidade dos textos já editados, com o material por nós escrito.

 
At 5/18/2010 2:52 da manhã, Blogger XR said...

@Rogério:
Como diria o Obélix... "ferpeitamente!" ;)

@Ricardo:
Essa auto-crítica é uma malandra que nos devolve a batata quente... será possível fazer uma auto-crítica objectiva se muito do material editado nos tempos mais recentes prima por uma fasquia de qualidade "a dar para o baixinho"?
Isto, é claro, se nos focarmos no género fantástico que tem sido explorado como se um Eldorado fosse (e que em alguns aspectos parece mesmo ser!).
Agora, se nos "atrevermos" a entrar no campo da FC - o aspirante a autor vai comparar-se com... o quê? Se as editoras não apostam no género, resta comparar os nossos arremedos de ficção com traduções dos "monstros" e pouco mais. E aí boa parte irá arrumar novamente os textos nas gavetinhas, envergonhados por sequer terem pensado que seriam capazes de escrever algo de jeito. Sem falar no facto de, caso se "atrevam" a contactar algumas editoras, a maioria destas responder como se a FC fosse uma lepra que urge correr dos catálogos.

Mas voltar a falar da publicação de FC seria quase uma repetição de um debate que se alargou a, pelo menos, três blogues, em que se trocaram muitas ideias mas que acabou por (pelo menos a mim) deixar à mesma com o sabor de "pois, isso é tudo muito bonito mas".
Valham-nos no meio de tudo isto alguns editores que lá se vão afastando da vaga geral da primazia absoluta do lucro sobre a qualidade.
Pena é não serem muitos.

Regina

 
At 5/18/2010 4:11 da tarde, Blogger Ricardo Lourenço said...

Regina,
claro que quando se descermos a fasquia de qualidade isso influencia a comparação possível, no entanto, a leitura de algumas obras de referência, por vezes bastaria para chegar a uma comparação de qualidade minimamente fiável. Além disso, a correcção na escrita deveria ser comum a qualquer género literário, pelo que a avaliação nesse sentido não implica que o autor se foque apenas no seu género de preferência.

 

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