quarta-feira, abril 28, 2010

Espíritos das Luzes - Resenha


Esta resenha revela-se um caso bicudo. Primeiro, pela polémica em que se insere, mesmo antes da sua elaboração, e depois, pelo carácter inusitado da obra, que falha como exemplar de literatura fantástica mas que deixa uma grande promessa na sua esteira.

Espíritos das Luzes, de Octávio dos Santos, é sem dúvida uma obra de grande fôlego. A sua intenção e o trabalho em que assenta são disso prova. O número de livros consultados de e sobre o século XVIII português, a escolha de trechos originais a utilizar como falas das personagens, a concepção místico-científica deste universo onde Portugal é um planeta e não um país, constituem uma tarefa hercúlea capaz de assustar a quase totalidade de nós.

No entanto, o balanço final, mesmo numa obra que revela tamanha ambição, depende da forma como todos estes elementos, - Passado, Presente e Futuro, Realidade e Imaginação -, se conjugam. Socorrendo-me de uma metáfora culinária, um conjunto de bons ingredientes não assegura por si só um prato bem confeccionado.

A história narra a visita do escritor William Beckford, habitante do planeta Inglaterra, às obras de reconstrução de Lisboa, capital do planeta Portugal, três dias depois do devastador terramoto de 1755, acompanhando-o o poeta Bocage. Durante um dia, Beckford percorrerá vários dos edifícios mais emblemáticos da época, cruzar-se-á com muitas das personagens históricas da altura, e ver-se-á envolvido na guerra entre Iluminismo e Obscurantismo que grassa na capital. Para além do cenário, também a linha temporal é condensada para permitir que vários factos e personagens tenham a possibilidade de interagir nesse curto período.

Existem fragilidades que perpassam a história, e fragilidades que, infelizmente, se apresentam logo ao início. Tendo indicado já algumas das qualidades que vejo, permitam-me focar por alguns momentos nos pormenores que me influenciaram negativamente a leitura, para, antes do fim da resenha, voltar ao que absorvi de mais positivo.

Assumindo-se o livro como ficção científica, seria de esperar que a componente especulativa estivesse bem suportada. No entanto, a tecnologia parece ter sido dispersa aleatoriamente, de gadgets eléctricos, electrónicos ou magnéticos, a pistolas e barras de detenção laser, de hologramas (visuais, olfactivos e até gustativos) a gravadores e transmissores psíquicos, de levitadores a esferas locomotoras, tudo parece ser permitido, como fantasia, mas sem grande coerência para além do gosto pessoal.
Da mesma forma, a dimensão da cidade que nos é apresentada choca com a descrição do que se passa. Por exemplo, o Terreiro do Paço é apresentado como tendo 49 km2 (por comparação, o verdadeiro tem 0.036 km2 – todo o município de Lisboa tem 80 km2) e o Arco da Rua Augusta 500 m de altura (por comparação, a mesma altura da Serra da Arrábida, tão bem conhecida do personagem Bocage), mas a movimentação de Beckford e Bocage, o que observam, o decorrer da procissão, tudo acontece à escala da Praça que vemos hoje; existe uma clara discrepância entre o cenário grandioso pretendido e a interacção dos personagens com esse mesmo cenário. Mesmo a restante cidade, apesar da referência a milhares de veículos voadores a transitar em diferentes camadas, é de uma extrema simplificação, numa propalada metrópole de 55 milhões de habitantes!

A colagem ao género da História Alternativa também resulta bastante confusa. A escolha de colocar na capa “MMIX” (capa que de resto está brilhante; de Alex Gozblau, sob conceito de Octávio dos Santos) torna-se (e acho que consigo dizer isto sem provocar um spoiler…), depois de terminar de ler o livro, completamente incompreensível. A escolha das personagens históricas já precludia que se tratasse de um 2009 alternativo, o que é vincado de forma mais enfática pelo final da história; esse sim assumidamente de ficção científica, arrumando de vez com a hipótese de uma simples História Alternativa.

Este Espíritos das Luzes tem o condão de tentar construir uma fantasia tecnológica, colocando na boca dos personagens o que os seus congéneres “reais” realmente pensaram e escreveram. Nas suas discussões de política, ciência e religião, constatamos que os defeitos e virtudes de Portugal, como nação, parecem ser os que eram há 250 anos atrás, com as conclusões que possamos daí retirar. Efectivamente, algumas das melhores partes deste romance são precisamente esses diálogos, nomeadamente na Real Academia das Ciências, no Palácio Foz e no Templo. No entanto, essas “falas” deveriam estar subordinadas ao texto original do Octávio dos Santos, e não o inverso. Ao construir o texto à volta desses segmentos, tentando algumas vezes argumentar discrepâncias entre narrativa e diálogos, o autor criou adicionais motivos de choque, que contribuem para dificultar a imersão do leitor na história. Exemplos como O Dilema de Shakespeare, de Harry Turtledove, mostram que textos originais e o tom da época podem ser entretecidos com sucesso num romance actual, desde que subordinados a uma narrativa moderna.
Tudo isso é mais lamentável quando a escrita de Octávio dos Santos se mostra a tempos (principalmente quando não se preocupa estritamente em construir pequenas pontes entre trechos de citações de terceiros) bastante competente, até cativante.

A narrativa de Espíritos das Luzes assenta em vários mistérios que se vão desenrolando ao longo do livro. Infelizmente, a sua resolução é atravancada pela necessidade da mensagem que o autor quer fazer passar. Da mesma forma, a necessidade da mensagem faz com que algumas das personagens que se revelam instrumentais perto da conclusão da história não terem adquirido até aí mais do que um esboço grosseiro, voltando apoteoticamente à boca de cena perto do final, não evitando uma aura de deus ex machina.
Por outro lado, é de registar o excelente trabalho de construção das personagens principais, Bocage e Beckford.

É entendível a paixão que move o autor perante esta época, os seus lugares e personagens. Assim se percebe a concretização deste projecto da forma que o foi. Mesmo assim, trata-se de uma obra rara, experimental, um possível indicador para outros voos do autor. Tomara todas as obras da literatura fantástica nacional falharem com o grau de ambição e de risco que o presente romance assumiu! Fica a curiosidade do que Octávio dos Santos nos poderá apresentar de seguida, provavelmente num registo não tão espartilhado pelas auto-impostas limitações referidas acima.

9 Comments:

At 4/28/2010 4:22 da tarde, Blogger OCTÁVIO DOS SANTOS said...

Rogério,

começo por dizer que se confirmou o que eu suspeitava. Nesta tua recensão ao «Espíritos das Luzes» confundes insuficiente, ou deficiente, «nível de execução» com estilo (o meu estilo, o estilo do livro); confundes o essencial com o acessório. Ou, melhor dizendo, atribuis mais importância ao acessório do que ao essencial.

O mais claro exemplo disso mesmo é o destaque dado à inserção de «MMIX» na capa. Lamento «desiludir-te», Rogério, mas tal significa, apenas e tão só... 2009, o ano da edição do livro. Não tem qualquer implicação no enredo, não significa o ano em que a acção decorre – que, de resto, nunca é mencionado. Foi uma ideia, um pormenor gráfico proposto pelo Alex Gozblau, que eu aceitei porque compreendi a intenção dele: a alusão, e a homenagem, aos livros do século XVIII, e ao modo como as capas, em especial, eram desenhadas. Agora que te expliquei (podias ter-me perguntado sobre isso antes, aliás tal como sobre outros aspectos...), resulta a obra menos «confusa», menos «incompreensível»?

Porém, o cerne da questão, da tua apreciação, é o de que «Espíritos das Luzes» constitui, no geral, um «falhanço». Vejamos de seguida, e resumidamente, os motivos – os defeitos - concretos que tu apontas e que, na tua opinião, demonstram esse «falhanço».

1 - «A tecnologia parece ter sido dispersa aleatoriamente, de gadgets eléctricos, electrónicos ou magnéticos, a pistolas e barras de detenção laser, de hologramas (visuais, olfactivos e até gustativos) a gravadores e transmissores psíquicos, de levitadores a esferas locomotoras, tudo parece ser permitido, como fantasia, mas sem grande coerência para além do gosto pessoal.»

2 - «A dimensão da cidade que nos é apresentada choca com a descrição do que se passa. (...) A movimentação de Beckford e Bocage, o que observam, o decorrer da procissão, tudo acontece à escala da Praça que vemos hoje; existe uma clara discrepância entre o cenário grandioso pretendido e a interacção dos personagens com esse mesmo cenário. Mesmo a restante cidade, apesar da referência a milhares de veículos voadores a transitar em diferentes camadas, é de uma extrema simplificação, numa propalada metrópole de 55 milhões de habitantes!»

3 - «Essas “falas” deveriam estar subordinadas ao texto original do Octávio dos Santos, e não o inverso. Ao construir o texto à volta desses segmentos, tentando algumas vezes argumentar discrepâncias entre narrativa e diálogos, o autor criou adicionais motivos de choque, que contribuem para dificultar a imersão do leitor na história.»

4 - «A sua resolução (dos mistérios) é atravancada pela necessidade da mensagem que o autor quer fazer passar. Da mesma forma, a necessidade da mensagem faz com que algumas das personagens que se revelam instrumentais perto da conclusão da história não terem adquirido até aí mais do que um esboço grosseiro, voltando apoteoticamente à boca de cena perto do final, não evitando uma aura de deus ex machina.»

Vamos então rebater... perdão, contestar (:-)) estes quatro pontos.

1 – A palavra-chave, aqui, é «parecer». Não, a tecnologia não foi dispersa aleatoriamente. Não, nem tudo foi permitido. Concordarás comigo, Rogério, que num livro que se pretende de FC & F é suposto existirem tecnologias fora do comum, do «nosso» comum. E em mais de 350 páginas não abusei neste aspecto, pelo contrário, até fui muito parcimonioso, só inventando, ou utilizando, dispositivos «extra-ordinários» quando tal absolutamente se justificava, quando tal se adequava ao enredo, à acção. Lá está, é preciso ler para perceber. Este teu reparo não tem qualquer justificação, e parece-me, desculpa-me, algo gratuito.

(Continua...)

 
At 4/28/2010 4:26 da tarde, Blogger OCTÁVIO DOS SANTOS said...

(Continuando...)

2 – Dimensão da cidade, escala da praça, «discrepância» entre o cenário e a interacção dos personagens... Percebeste, Rogério, que este «Portugal como planeta» é modelado no «Portugal como país», não é verdade? E que eu jogo na utilização de elementos, de cenários conhecidos, só que, claro, muito maiores, porque este «outro Portugal» é um planeta, certo? Por outro lado, creio que seria inevitável haver uma certa discrepância entre o «palco» e os personagens porque... estes não se tornaram gigantes, porque continuam a ter as dimensões habituais de humanos «normais»! Poderia talvez tê-los tornado «primos» do Galactus, mas tal não me pareceu o mais indicado... Quanto à «extrema simplificação» da cidade... bem, ela é simples mas não é «extrema». Optei por não gastar muitas páginas a descrever uma Lisboa com dezenas de milhões de habitantes porque preferi deixar espaço à imaginação dos leitores para «pintarem» eles os seus próprios pormenores... e porque a cidade é um pano de fundo, «grandioso», sim, mas secundário perante a história que eu quis contar, isto sim (sempre) o mais importante.

Ou seja, e num primeiro resumo, estes dois primeiros «argumentos» não têm grande consistência – ou não têm mesmo qualquer consistência. Porém, os últimos dois, reconheço, já a têm. Vamos a eles.

3 – Então, as falas dos personagens «deveriam» estar subordinadas ao meu texto original, e não o inverso? «Obrigado», Rogério, pelo «voto de confiança» mas... eu, autor, decidi, deliberadamente, conscientemente, «subordinar-me». Cá estamos, precisamente, na questão «insuficiência da execução» vs. «estilo». Não pareces ter lido a introdução, em que eu explico claramente que o objectivo último do livro é evocar figuras históricas algo esquecidas e que merecem, na minha opinião, ser recordadas e (re)valorizadas. Implica «adicionais motivos de choque»? Óptimo! E a «imersão» só é difícil para o leitor que, primeiro, não conhecer as «regras», e que, segundo, conhecendo-as, não as «respeitar»...

4 - ... Do que se infere, disto e de tudo o mais que já explanei, que, sim, exactamente, a «necessidade de fazer passar a mensagem» é o mais importante, e que, concedo, ocasionalmente poderá haver algum «atravancamento». Paciência... não tenho, não tive a pretensão de construir uma obra perfeita. E é interessante que tu fales em «boca de cena» e em apoteose, porque, na verdade, de certo modo vejo «Espíritos das Luzes» como uma ópera, e não apenas por o centro da narrativa se desenrolar num teatro e Bocage falar sempre em verso. E personagens «instrumentais» com esboços «grosseiros»?! Refuto liminarmente este adjectivo. A quem te referes? Às Leonores?

Em resumo, ao apontares supostos «defeitos», acabas, ironicamente, por demonstrar que eu atingi os meus objectivos! Mais do que isso: estão à vista os teus «pré-conceitos» porque aplicas ao «Espíritos...» as «ferramentas», a perspectiva, que se aplicam, e/ou que derivam, a/de outros livros com os quais o meu poucas ou nenhumas semelhanças tem. Convirás, Rogério, que é algo despropositado, e até injusto, «meter ao barulho» aqui «O Dilema de Shakespeare».

Perdoa-me, mas parece-me evidente que quem «falhou» foi o crítico.

 
At 4/28/2010 5:18 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Teria gostado mais do "Espíritos das Luzes" se o livro tivesse um décimo da hilaridade desta última resposta do Octávio dos Santos.

 
At 4/28/2010 6:43 da tarde, Blogger Rogério said...

Caro Octávio,

Como não é minha intenção que o debate se eternize, respondo-lhe sucintamente ao que acho que não compreendeu na minha resenha:

1 – Creio não ter confundido “nível de execução” com “estilo”. Critico ou elogio o nível de execução, porque varia ao longo do livro, e lamento a escolha de estilo porque, a mim, prejudicou a leitura. Aliás, frisei várias vezes ser esta resenha um reflexo da minha opinião pessoal, não a Verdade Absoluta; pelos vistos essa possuis tu.
Da mesma forma, permite que a mim, como leitor, me caiba decidir o que para mim é essencial e acessório; assim como tu reinterpretas-te na minha resenha o que era essencial e acessório consoante a tua visão – que te digo já não corresponder à minha quando a redigi (e refiro abaixo porquê).

2 – Claro exemplo disso é a questão do MMIX, que apresentei como acessória, para descolar o livro da História Alternativa, em que incompreensivelmente, para mim, se estava a colar. Mas isso era uma questão acessória, que apontei ter a ver com o marketing do livro, não com o essencial da sua escrita. Ou seja, tomas como essencial o que na resenha afinal é mesmo acessório.
Realmente, como leitor, não percebi o sentido do 2009 figurar na capa. Agora que me explicas, entendo. Entendo que convirás comigo que não é aquele o layout de um frontispício do séc XVIII, que a data não é colocada encostada ao título mas na parte inferior da capa (sozinha, com a palavra Lisboa, ou com as palavras "impresso em Lisboa"), que quem homenageia a forma como as capas eram desenhadas, e confia no leitor para o reconhecer, não o faz de forma tão díspare. Por último, que nada na narrativa, introdução ou posfácios, e como se viu nada no layout escolhido, sustenta, ou honra, essa propalada intenção.

3 – Tecnologia: acabas por sustentar o meu argumento sobre escolhas por gosto pessoal ao afirmares que apenas criaste o que a acção requeria. A crítica foi mesmo essa. O que a tua intenção requeria… sem interligação entre elas, sem impactos na sociedade para além dos que pontualmente apontavas por te serem confortáveis com a acção requerida. Mas, mesmo assim, também esta foi apontada como acessória, já que se limitou, para mim, a diferenciar uma ficção científica de uma fantasia científica.
E, como apontei, só no fim do romance ele se volta a assumir como ficção científica.

(continua...)

 
At 4/28/2010 6:43 da tarde, Blogger Rogério said...

4 – Nada na resenha é “gratuito”.

5 – Entendeste mal a minha objecção quanto à escala. Nada tenho contra essa opção, apenas quando os personagens se movimentam nela, como no caso da procissão na praça, como se a mesma tivesse, na prática, as dimensões actuais e não as imaginadas no livro.

6 – Penso que dei indicações suficientes no texto de que percebi a tua intenção, as tuas regras. Por isso te elogiei o arrojo, por isso te critiquei sacrificares a sustentação da descrença em nome dessas regras. Para outros leitores isso terá menos importância? Certamente. Mas não para mim.
(e é só da minha opinião que falo, que, que eu saiba mas que tu aparentas não conceber, é válida como qualquer outra).

7 – Sim, também percepcionei a história como uma ópera, mas, infelizmente como as óperas, às vezes desafinou. Tenho pena que o Octávio, apesar de assumir não ter escrito uma obra perfeita, não lhe reconheça imperfeições (pelo menos nenhuma que o leitor não fosse obrigado a aceitar pelas suas "regras").

8 – Corrijo o adjectivo para "apenas esboçadas"; “esboço grosseiro” foi defeito de inglesismo, pelo qual me penitencio.

9 – Creio ter apontado desde o início da resenha que acho que cumpres os teus objectivos. Se o fazes de forma satisfatória para (este) leitor, isso já é outra questão, que penso também ter deixado clara na resenha.

10 – Não, não acho o Dilema despropositado ou injusto. Chamei-o por uma questão de tom, tratamento e eficácia. Foi um termo de comparação para, de forma construtiva e objectiva, ilustrar esse ponto. Para ilustrar a variante conceptual que estava a contrapor.

11 – As “ferramentas” foram as minhas de leitor, utilizadas da forma mais honesta que sei. Até porque foi a visão de leitor que informou o tal "critico falhado". Mas também te digo que, sem a insistência desse crítico, este leitor não teria voltado num futuro tão próximo para terminar o teu livro.
E o mais caricato é que, como penso que transparece na resenha, este leitor acabou por dar a experiência como ganha, aguçando-lhe a curiosidade para um próximo livro. Mas, para os elogios ou pontos positivos na resenha, não pareces ter tido olhos. Como afirmas no inicio da tua… contestação, a minha resenha só confirmou o que já suspeitavas. Pergunto-me quem terá partido para isto com mais… pré-conceitos?!

Abraço,
Rogério

 
At 4/28/2010 10:21 da tarde, Blogger OCTÁVIO DOS SANTOS said...

Então, Rogério, eu «não reconheço imperfeições» no «Espíritos das Luzes»?
Qual foi a parte de «concedo, ocasionalmente poderá haver algum “atravancamento”» que não percebeste?

E continuas a dar-me razão quando eu digo que tu pareces, por vezes, não ler tudo o que eu escrevo, ou a não perceber o que eu escrevo, enfim (e reitero), a dar mais importância ao acessório do que ao essencial. O «MMIX» não pretendeu ser – eu não o afirmei – a reprodução de um «layout de um frontispício do séc XVIII.» Pretendeu ser, como escrevi, «uma alusão, e uma homenagem» ao estilo gráfico daquele tempo. Uma alusão e uma homenagem têm de ser cópias perfeitas dos «originais», e em que obrigatoriamente «a data (tem de ser) colocada encostada ao título mas na parte inferior da capa (sozinha, com a palavra Lisboa, ou com as palavras "impresso em Lisboa")»? Como diria o Capitão Jack Sparrow, «trifles»! ;-))

E mais uma vez se demonstra como tu és uma das pessoas (sim, há outras...) que dão demasiada importância a etiquetas, a categorias, géneros e sub-géneros. Tal necessidade de «catalogar» constitui, a meu ver, uma outra forma de «pré-conceito»: de tanto se tentar, à partida, «encaixar» - por vezes «à força» - uma determinada obra numa determinada «sub-classe» pré-determinada, isso pode enviesar a apreciação dessa obra, e, pior, dificultar a sua fruição plena. Estou, claro, a falar da tua diferenciação entre «ficção científica» e «fantasia científica» no que se refere à utilização que eu faço da tecnologia no livro.
Mais uma vez te pergunto: foi por isto que não recomendaste o livro à Odyssey 2010? O que é que interessa, Rogério, que não existam «impactos na sociedade para além dos que pontualmente» eu apontei por me «serem confortáveis com a acção requerida»? Acaso essa sociedade, esse mundo, que eu criei, existe em alguma outra dimensão que não a do «Espíritos...»?

«Reclamas» que eu não pareço ter «tido olhos» para os «elogios» ou «pontos positivos» na tua resenha. Claro que os «vi». Só que, compreenderás, todos esses supostos elogios e pontos positivos como que se desvanecem quando leio, no início e no fim da tua recensão, a palavra «falhanço» em duas «variações»: «falha como exemplar de literatura fantástica»; «tomara todas as obras da literatura fantástica nacional falharem com o grau de ambição e de risco que o presente romance assumiu.»
O «papel de embrulho» pode ser bonito e vistoso mas a «prenda»... é má. «Falhanço» é uma uma palavra muito forte, Rogério. Muito desagradável. Em rigor, afirmas que «Espíritos das Luzes» está «reprovado»; que os pontos negativos são em número superior ao dos positivos; que, de 0 a 20, teve menos de 10; que, de 1 a 5, teve menos de 3; que, em percentagem, teve menos de 50%.

Como «compensação», à laia de «prémio de consolação», lá escreves que a minha obra «deixa uma grande promessa na sua esteira», é «rara, experimental, um possível indicador para outros voos do autor», aguçou-te «a curiosidade para um próximo livro.» Eu não sou propriamente um jovem em início de carreira, Rogério; não sei se e quando vou voltar a publicar, e se sim, qual vai ser o livro publicado – haverá autores que não têm esses problemas, mas eu não sou um deles. Todavia, isso talvez se deva ao «facto» de, como tu afirmaste, a minha escrita não ir além de se mostrar «a tempos (principalmente quando não se preocupa estritamente em construir pequenas pontes entre trechos de citações de terceiros) bastante competente, até cativante» (sublinho o «a tempos»). Pois, este é um «elogio» e tanto...

 
At 4/28/2010 10:46 da tarde, Anonymous Somerset Maugham said...

People ask for criticism, but they only want praise.

 
At 4/28/2010 10:46 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Sr. Rogério

Por favor não me leve a mal que lhe diga, mas pelos comentários do Sr. Octávio fiquei muito mais esclarecido quanto à fraca qualidade do livro do que pela sua "resenha".

Não desista do seu emprego diurno, que como crítico não vai lá. Quase me levou a querer comprar o livro. Hossana pelo autor honesto!

 
At 4/28/2010 11:43 da tarde, Blogger Rogério said...

Octávio,

Creio que ambos já exposemos na medida do possível os nossos argumentos e contra-argumentos, portanto não haverá mais a dizer sobre a questão.

Se o cerne da disputa é a indicação à Odissey 2010, e a minha opinião, e a de leitores como eu, talvez a solução seja apresentares directamente a editores anglo-saxónicos o livro traduzido, já que até é um campo em que estás à vontade.
Em alternativa, é esperares que os leitores que se manifestam de forma positiva o façam em tal número que te façam esquecer leitores como eu e os seus preconceitos.

Rogério

 

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